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EDIÇÃO ESPECIAL Página atualizada em 08 de outubrobro de 2000

 

ARTIGO

 

Dialética dos Grupos: Contribuições de Sartre à Compreensão dos Grupos
Psicólogo Carlos Rubini

SINOPSE

O presente estudo apresenta uma introdução às idéias de J.P.Sartre a respeito da gênese e processo dialético dos grupos.
Discorre sobre os diferentes momentos do processo grupal, abordando conceitos de série e serialidade (dispersão e solidão dos homens) e a superação da serialidade pela constituição do grupo (grupo em fusão). Analisa o processo de sobrevivência do grupo ou petrificação progressiva do mesmo através dos conceitos de juramento, organização, fraternidade-terror e instituição, ressaltando a contribuição de Sartre para a compreensão da vida dos grupos.

ABSTRACT

This paper presents an introduction to J.P. Sartre's ideas concerning the genesis and the dialectical process of groups.
It reasons on the different stages of the group process by means of series and seriation concepts (man's dispersion and loneliness ) and seriation surmounting through group constitution ( the group melting). It analyses the group survival process and / or the progressive group petrification through the concepts of oath taking, organization, fraternity-terror and institution.
It also emphasizes the important contribution of Sartre's thought to the understanding of group live.

UNITERMOS

Série e serialidade. Grupo em fusão. Juramento. Organização. Fraternidade-Terror. Instituição.

UNITERMS

Series and seriation. Group melting. Oath. Organization. Fraternity-Terror. Institution.

I - INTRODUÇÃO

Este texto pretende apresentar uma breve introdução teórica às idéias de J.P.Sartre a respeito dos grupos. Baseia-se no estudo da obra "Crítica da Razão Dialética" onde é proposta não uma "história real", mas uma "gênese ideal" buscando a inteligibilidade dos grupos e dos diferentes momentos do processo grupal: série, grupo em fusão, organização e instituição mediados pelo juramento e fraternidade-terror.

Para a compreensão dos grupos proposta por Sartre necessário se faz, antes de mais nada, desvencilhar-se do modo de pensar determinista e racional, da lógica das coisas prontas e acabadas. A inteligibilidade dos grupos passa pela dinâmica da troca e da reciprocidade, dinâmica esta inscrita numa relação dialética. Dialética como o caminho do homem em sua relação com a natureza e a sociedade, a fim de transformá-las: é a lógica da ação "sempre recomeçada", pois procede de contradições, de negações parciais, de dados jamais acabados e sempre questionados. É a lógica do inacabado. E a dialética como lógica viva da ação não pode aparecer à uma razão contemplativa. "Ela se descobre durante a praxis e como um momento necessário desta, ou se se prefere, ela se cria de novo a cada ação e torna-se método teórico-prático quando a ação que se desenvolve dá suas próprias luzes". (1 , p. 170 - Vol. I ).

O homem é mediado pelas coisas na mesma medida em que as coisas são mediadas pelo homem. Este é um exemplo da circularidade do pensamento dialético. Representa um tipo de raciocínio que deve ser feito para que o cenário humano seja inteligível. Inteligibilidade esta que é fundamentalmente uma questão de compreender o meio pelo qual uma pluralidade é constituída como um todo - seja todo sujeito ou todo objeto: "uma totalização é uma organização unificadora de uma pluralidade e o cenário humano é uma pluralidade de tais organizações". (1, p. 211-212 - Vol. I ).

Já a totalidade se define como um ser que, radicalmente distinto da soma de suas partes, se reconhece todo inteiro - de uma forma ou de outra - em cada uma de suas partes e que entra em contato consigo mesmo quer por sua relação com uma ou várias de suas partes, quer por sua relação com as relações que todas ou várias de suas partes mantêm entre si. Mas esta realidade por estar feita por hipótese (um quadro, uma sinfonia, etc.), só pode existir no imaginário, i.é., como correlativo de um ato de imaginação.

O grupo, portanto, não pode ser pensado como uma totalidade pronta, acabada, e sim como uma totalização em processo. E a dialética dos grupos será o movimento sempre inacabado dos grupos, que surgem e se mantém através da práxis.

Ao movimento dialético nos grupos opõe-se a anti-dialética. Segundo Sartre, existem grupos esclerosados, reificados (coisificados). É a antidialética de um universo humano no qual os objetos fabricados, as coisas oriundas da práxis humana transformam-se em ordem "prático-inerte", vazios de qualquer sentido vivificante. "Grupos, sob a ação de determinadas circunstâncias e em determinadas condições, morrem antes de se desagregarem. O que quer dizer que se petrificam, se estratificam.." ( 1, p. 394 - Vol. I ). E o conceito fundamental que descreve a reificação dos grupos é o conceito de série e serialidade.

II - SÉRIE E SERIALIDADE

O grupo encontra-se em luta constante contra a serialidade e a alienação.

Serialidade é o tipo de relação que se estabelece entre indivíduos que compõem uma série. Série é uma forma de "coletivo" (conjunto humano) cuja unidade provém do exterior. Sartre dá o exemplo de uma fila de pessoas diante de um ponto à espera do ônibus. Cada um sente-se em frente ao outro em solidão, como se nada tivesse em comum com os demais. Essas pessoas - de idade, sexo, classe e meios muito diferentes - realizam na banalidade do cotidiano a relação de solidão, de reciprocidade e de unidade pelo exterior. Relação esta que caracteriza os cidadãos de uma grande cidade.

A solidão é vivida como a "negação provisória por cada um das relações recíprocas com os outros". Trata-se de uma pluralidade de solidões que expressa a contraparte negativa da integração dos indivíduos. Cada um vive como reciprocidade no meio do social a negação exteriorizada de toda interioridade. A intensidade da solidão, como relação de exterioridade, expressa o "grau de massificação" do conjunto social. Neste nível, as solidões recíprocas como negação da reciprocidade significam a integração dos indivíduos na mesma sociedade.

A série representa um tipo de relação que nega a reciprocidade. Coisifica o outro e expressa a alienação do homem na serialidade. É um tipo de relação que tem as características do "idêntico", onde todos são vistos como equivalentes aos demais. Cada um é apenas um número substituível por outro. É apenas quantidade.

Os indivíduos na fila do ônibus negam recìprocamente qualquer elo entre seus mundos interiores. É o ônibus, objeto material e exterior, que determina esta ordem serial. O ônibus, como ser comum e exterior a cada um, produz a série, vinculando indivíduos numa série onde cada um é um número qualquer do conjunto. E, segundo Sartre, existem modos seriais de comportar-se, sentimentos seriais, pensamentos seriais. "A série é um modo de ser dos indivíduos uns com relação com os outros e com relação ao ser comum e esse modo os metamorfoseia em todas as estruturas". ( 1, p. 406 - Vol. I ).

III - A PRÁXIS GRUPAL

O grupo se constitui numa luta constante contra a serialidade e a alienação pela superação das mesmas, o que gera uma unificação das liberdades e com ela a relação de reciprocidade. A reciprocidade é a relação na qual cada um é para o outro como si mesmo.

Sartre procura determinar a gênese de um grupo, as estruturas de sua práxis ou a racionalidade da ação coletiva. Para ele "o grupo é como paixão, isto é, enquanto luta interior contra a inércia prática que o afeta". (1, p. 12 - Vol. II). E a práxis do grupo é o movimento que se institui na luta contra a serialidade e a alienação. É um atuar com consciência da alienação para uma transformação ativa. A práxis é o processo pelo qual o homem constantemente busca desalienar-se, i.é., realizar-se como homem, modificando-se e modificando o meio. Ao modificar o meio modifica-se também a si mesmo, o que implica em um "fazer" e um "compreender", pois ambos são momentos distintos da práxis. ( 1, p. 216-232 - Vol. II ).

O grupo constitui-se contra a série, nasce na fusão da serialidade. A série é dispersão e o grupo é totalização. Dessa maneira a vida do grupo, sua dinâmica, constitui-se numa permanente tensão entre estes dois polos: serialização e totalização. O grupo mantém sua existência em função de uma luta permanente contra um sempre possível retorno à dispersão.

A totalização que constitui o grupo é sempre buscada mas nunca conseguida de modo definitivo. Totalização sempre inacabada, jamais constituindo-se como totalidade, um ser-do-grupo que transcenda os próprios indivíduos agrupados. Grupo é movimento constante de desenvolvimento sem jamais atingir uma totalidade estruturada. O grupo se trabalha, assim, constantemente. É uma práxis comum, grupal, com seus componentes estabelecendo uns com os outros relações que constituem o grupo. Nesse sentido Sartre define grupo como ato e não como ser. É a ação do grupo sobre si mesmo.

IV - O PROCESSO GRUPAL

1. O Nascimento do grupo - A Fusão

Como ocorre a transformação de uma série ( indivíduos isolados ) em grupo?

A serialidade encontra-se na origem de todo grupo e este se constitui, num primeiro momento, contra a serialidade. Ao constituir-se o grupo ocorre uma fusão das distintas serialidades de cada um dos integrantes. Pode-se descrever essa ruptura do isolamento da série a partir da tensão original da necessidade (escassez) ou de um perigo comum. "O grupo se constitui a partir de uma necessidade ou de um perigo comum e se define pelo objetivo comum que determina sua práxis comum..." ( 1, p. 14-15 - Vol. II ).

O momento da fusão (nascimento do grupo) acontece com a tomada de consciência de uma tarefa comum (a partir da necessidade, escassez, perigo, etc.) onde cada um depende dos demais. É o momento em que indivíduos isolados tomam consciência de sua interdependência, de seus interesses comuns. Estabelece-se um "degelo" das comunicações.

A fusão é o momento fundamental da vida de um grupo. É o momento da superação da inércia petrificante da série. Além da necessidade e da consciência da mesma é necessário, também, querer mudar a situação. Surge novo tipo de relação: cada qual torna-se para si e para os outros uma pessoa com a qual é necessário contar. Há uma transformação qualitativa nas relações entre as pessoas e a "fusão" dos interesses comuns conduz à uma ação comum (práxis grupal), tirando as pessoas da inércia, transformando a realidade.

Um traço essencial da fusão é que cada um é o grupo e o grupo está em cada um como uma síntese volvente e sempre atual, em que cada um é, ao mesmo tempo, "mediador" e "mediado"- ele próprio e o grupo. (1, p. 39 - Vol II). Ocorre uma unificação das liberdades estabelecendo-se, deste modo, uma relação de reciprocidade. E na relação de reciprocidade cada um é para o outro como si próprio. Cada um é o mesmo que o outro num sentido humano, e não de idêntico ou de coisa. É a interiorização da reciprocidade, interiorização do outro como vínculo humano.

Para Sartre as relações recíprocas e ternárias fundamentam todas as relações entre os homens. E no grupo as relações são ternárias e não binárias ( eu - tu) , pois entre o indivíduo e o grupo há sempre um terceiro. E entre dois indivíduos do grupo também há um terceiro, através da mediação. Na mediação tanto o grupo pode ser o terceiro como cada integrante pode funcionar como terceiro no grupo. Todos os membros do grupo são "terceiras pessoas" ao mesmo tempo em que se associam em pares de reciprocidade. Como terceira pessoa cada um totaliza as reciprocidades de outrem. Essa é uma das mediações que constitui o grupo, pois cada terceira pessoa revela o grupo para as outras terceiras pessoas, que são todas constituintes do grupo. (1, pg. 39-46 - Vol. II).

O grupo em fusão está em toda parte. A unidade do grupo é ubiqüidade. Nesta ubiqüidade não é aquilo que sou no outro - nesta práxis unida não existe outro. Na práxis do grupo em fusão a práxis de cada um é realizada por cada qual como eu em toda parte. A circularidade do grupo em fusão vem de toda parte e ao mesmo tempo, como atividade livre, real. A unidade do grupo fundido encontra-se no interior de cada síntese. Cada ato de síntese está unido por interioridade recíproca a todas as outras sínteses do mesmo grupo. E também é interioridade de cada uma das outras sínteses. A unidade é a unificação vinda do interior da pluralidade das totalizações. A unidade do grupo, segundo Sartre, é dada pela ação grupal, pela unidade das ações. A unidade do grupo é prática. Não é ontológica, de um ser ou estado, mas de um ato em curso. (1, p. 66 - Vol. II).

"A unidade grupal é vista como relação sintética que une os homens com um ato e para um ato". (1, p.55 - Vol. II ). Tomando o exemplo das pessoas na fila de espera do ônibus, o número de pessoas era a série, uma quantidade de indivíduos isolados. No grupo em fusão passa-se à ordem da qualidade. Assim o décimo, por exemplo, no grupo em fusão é ao mesmo tempo todo mundo do grupo de dez e ninguém, já que cada pessoa é necessária para se constituir um grupo de dez pessoas. Cada um dos membros assume, idealmente, as dez posições já que este grupo não é uma reunião inerte de dez pessoas. Trata-se, portanto, de uma relação sintética que realiza a unidade do grupo pela ação, pela unidade (ubiqüidade) das ações dos componentes do grupo.

No grupo em fusão a relação sintética faz com que cada um seja em toda a parte o mesmo. Cada um pode decidir por todos. Esse "nós" grupal é "prático e não substancial", "é o conjunto das liberdades práticas reunidas na brusca ressurreição da liberdade que se levanta contra a prisão do mundo prático-inerte". (1, p. 66 - Vol. II). Tal explosão, segundo Sartre, é a liquidação súbita dessa prisão pela liberdade comum em oposição à necessidade.

Resumindo, o grupo em fusão é o inverso da serialidade. Contitui-se por meio e no interior da dispersão que precede o grupo. E sua primeira característica é manter sua existência como uma luta constante contra uma volta, sempre possível, à série, à dispersão, solidão e alienação. Uma segunda característica é a totalização inacabada, que constitui o grupo, sem se constituir num ser-grupal que transcenda os indivíduos agrupados. Caracteriza-se como práxis grupal, ação do grupo sobre si mesmo, trabalhando-se incessantemente numa relação sintética, fundindo as multiplicidades das sínteses seriais.

2. O Juramento

Uma vez constituído o grupo, há o risco constante de nova dispersão (volta à série). Surge então o "juramento" cuja origem é o temor permanente da dispersão inicial, caracterizando-se como compromisso: a liberdade de cada um comprometida com a permanência no grupo. "E quando a liberdade torna-se práxis comum para construir a permanência no grupo produzindo por ela mesma e na reciprocidade mediada sua própria inércia, este novo estatuto chama-se juramento". (1, p. 84 - Vol II).

O juramento surge contra o risco de ruptura do grupo, contra o próprio risco da liberdade. Pode ser visto como uma forma de "resistência do grupo" à ação da separação ou afastamento, como garantia do futuro através da falta de mudança produzida no grupo pela liberdade. Pelo juramento o grupo procura tornar-se seu próprio instrumento contra a serialidade que o ameaça de dissolução.

Jurar-se-á contra toda força que possa afastar do grupo, contra todo risco de liberdade de cada um na medida em que é atraído para outras partes. O juramento é a "ditadura do mesmo em cada um". Para Sartre o juramento torna-se inteligível como ação comum do grupo sobre si mesmo. No grupo juramentado nada de material une os seus componentes. O perigo não é real, é apenas possível.

O juramento é um "poder difuso da jurisdição" no grupo. " É o poder de cada um sobre todos e de todos sobre cada um". (1, p.104 - Vol. II ). Ele me garante contra minha própria liberdade e institui meu controle sobre a liberdade do outro. É um tipo de fraternidade-terror que fundamenta o grupo em sua permanência.

O juramento é a passagem de uma forma imediata do grupo com risco de dissolução à uma outra forma permanente mais reflexiva.

Sartre distingue duas evoluções do grupo em fusão: o grupo de sobrevivência e o grupo juramentado. A primeira diz respeito à uma fusão face à ameaça e perigo real, material, exterior. E a segunda, no grupo juramentado não é algo material que une os membros, pois o perigo agora não é real, é apenas possível. Assim a origem do juramento é a ansiedade ante uma possível ameaça ou perigo. E uma vez desaparecida a ameaça exterior (pela fusão) há o temor produzido pelo próprio grupo (grupo juramentado). É um temor reflexivo, interior.

A existência, portanto, do medo e do temor como condição de permanência no grupo é necessária. O perigo remoto pode não ser suficiente para manter o grupo reunido. E no âmago do juramento substitui-se o medo da pressão exterior por outra pressão interior. E "esse medo, livre produto do grupo e ação corretiva da liberdade contra a dissolução da série é o Terror". ( 1, p. 95 - 96 - Vol. II ).

O juramento revela o surgimento de um estatuto de permanência no grupo que faz surgir a organização do grupo como objetivo imediato do grupo organizado.

3. A Organização

A organização se dá quando o grupo se toma como objetivo, a partir do juramento. Com o estatuto de permanência produzido pelo juramento, a questão da organização torna-se o objetivo imediato do grupo estabelecido.

O grupo se toma como objetivo e a "organização como ação do grupo estatutário" recai sobre si mesmo e seus membros. Isso quer dizer que o grupo se trabalha: se faz grupo e só continua a ser grupo na medida em que se faz continuamente. Significa uma auto-criação contínua. O grupo se trabalha (se organiza) para poder lograr seus objetivos.

No estágio do grupo em fusão o indivíduo era o indivíduo orgânico, na medida em que interiorizava a multiplicidade das terceiras pessoas, sendo ele próprio uma terceira pessoa não juramentada, que vivia sua liberdade na práxis comum, na ubiqüidade da liberdade. E é esse indivíduo orgânico que "se perde pelo juramento para que exista o indivíduo comum".

Já no estágio da organização o poder se define para cada um no quadro de distribuição de tarefas. É a função. E no exercício da atividade organizada, a função é uma definição positiva do indivíduo comum. É uma determinação da práxis individual. Nesse estágio o indivíduo comum "pertence ao grupo na medida em que executa determinada tarefa, e apenas essa". ( 1, p.115 - Vol. II)

Sartre usa o exemplo de uma equipe de futebol, onde "a função de goleiro, atacante, etc., apresenta-se como uma pré-determinação para o jogador que inicia sua carreira". O jogador é significado por essa função. Cada um exige dele "pela equipe" que faça o seu dever no inteior do quadro definido pela organização. A função é uma "tarefa a preencher". No momento do jogo os atos particulares do jogador "não apresentam qualquer sentido a não ser em conjunto com todos os atos dos demais jogadores de sua equipe". Isto é, "cada função supõe a organização de todas". (1, p. 122-137- vol. II).

Assim o espírito de equipe é visto por Sartre como a "interdependência dos poderes em ligação com o objetivo comum". A iniciativa individual não é eliminada, pois a função é "determinação indeterminada" que deixa lugar à criatividade individual. É portanto ele, o indivíduo comum definido pela função, que age com todos os outros no sentido dos objetivos, na totalização dessas práxis. Já a práxis do grupo é a única ação específica do grupo organizado, i.é., a organização e a reorganização constante ou sua ação sobre os seus membros. O grupo não trabalha. Para Sartre ele se trabalha na medida em que se organiza.

O grupo só "age sobre o objeto na medida em que age sobre si mesmo". E sua ação sobre si - a única que exerce enquanto grupo - se define a partir de sua práxis. Isso significa que "o grupo define, dirige, controla e corrige sem cessar sua práxis comum..." E esse conjunto de operações supõe a diferenciação, por exemplo: a divisão de tarefas supõe a criação de aparelhos especializados no interior do grupo, tais como orgãos diretores, grupos encarregados de coordenar, mediar, distribuir ou ajustar mudanças, serviços administrativos, etc. Este primeiro momento da diferenciação é, fundamentalmente, uma ação do grupo sobre si mesmo. (1, p.113 - Vol. II ).

A partir dessa ação organizada que recai sobre o próprio grupo surge o problema do poder interno (hierarquia, funções ) que coloca em risco a soberania do grupo. Isso porque, no estágio da organização, o poder se define para cada um no quadro de distribuição de tarefas. No grupo organizado efetua-se uma divisão de tarefas, estabelece-se processos de trabalho e de decisão. Há o reconhecimento implícito de normas comuns as quais devem ser cumpridas. O trabalho do grupo é efetuar sua própria organização em função de sua finalidade, de si próprio como objetivo.

O trabalho do grupo possui um duplo significado: a) o grupo se trabalha para conquistar, numa contínua criação, a unidade ontológica que lhe falta e b) o trabalho em grupo (o grupo trabalha) realiza uma unidade prática dos organismos que o compõem.

O grupo em ação organizada deve ser compreendido por duas espécies de atividades simultâneas e das quais uma é função da outra : a) a atividade dialética como imanência ( interna - de auto-diferenciação e reorganização da organização) e b) a atividade dialética como ultrapassagem prática do estatuto comum no sentido da objetivação do grupo (externa - transformação do campo, produção, luta, conquistas, etc.).

4. Fraternidade - Terror

Na luta permanente para evitar sua dissolução na série, o grupo tenta obcecadamente atingir sua unidade, sem jamais consegui-la. Segundo Sartre, o grupo é uma "existência" sem "essência". E o perigo constante de dissolução que existia no grupo em fusão também está presente no grupo organizado. Tal conflito não se configura como paralização do grupo. Pelo contrário, como foi visto, vai engendrar os estágios que possibilitaram a passagem da fusão à organização por intermediação do juramento, que introduziu o estatuto de permanência no grupo.

As manifestações de fraternidade começam a surgir quando o grupo está em fase de organização. Sua origem encontra-se no juramento no momento em que começam a surgir os temores da eclosão do grupo pela desorganização.

"A fraternidade se apresenta no grupo como um conjunto de obrigações recíprocas e singulares, definidas por todo grupo a partir das circunstâncias e seus objetivos...
A fraternidade é o laço real dos indivíduos comuns, pois cada um vive seu ser e do outro como forma de obrigações recíprocas. A fraternidade é o direito de todos através de cada um sobre cada um ..." (1, p.103 - 104 - Vol. II ).

Dessa maneira a fraternidade-terror possibilita o controle das possíveis fugas e não-participação. Exerce a "depuração" dos opositores e traidores. O terror não se constitui numa ditadura da minoria. É uma estrutura fundamental do grupo em sua totalidade que fundamenta um tipo de relação. Cada um se sente solidário com todos na solidariedade prática do perigo vivido e na violência comum. ( Exemplo do linchamento do traidor dado por Sartre).

A cólera e a violência são vividas, ao mesmo tempo, como terror exercido sobre o traidor e como laço de amor entre os linchadores. Como o grupo tem sua origem na força das ameaças exteriores (perigo), ao diminuir a intensidade da mesma (mesmo que o perigo não tenha desaparecido) é substituído por um substituto inventado: o terror. "O invento do terror como contraviolência engendrada pelo próprio grupo e aplicada pelos indivíduos comuns em cada agente particular é a utilização da força comum, até então comprometida contra o adversário (perigo), para a constituição do próprio grupo". (1, p.105 - Vol. II ).

A fraternidade - terror, como autêntica relação de interioridade entre os membros do grupo funda sua violência e sua força coercitiva no mito do novo nascimento. Terror e juramento se referem ambos ao temor fundamental de uma dissolução da unidade.

O grupo continua, assim, sua luta incessante em adquirir seu "estatuto ontológico", a unidade de um organismo. Produz-se a si mesmo por meio de novas práticas, sob a forma de um grupo institucionalizado, o que significa que os orgãos, as tarefas, as funções e o poder vão transformar-se em instituição. O grupo"procurará conseguir um novo tipo de unidade institucionalizando a soberania e o indivíduo comum em indivíduo institucional". (1, p.260 - Vol. II ).

5. A Instituição

É na práxis e através da práxis que surge um novo estatuto da inércia no grupo, quando o grupo organizado inicia sua auto-transformação tornando-se instituição. É o ressurgimento, mais uma vez, da serialidade no âmago da unidade em outro nível. A organização torna-se instituição, o indivíduo organizado torna-se indivíduo institucionalizado, as reciprocidades mediadas do grupo organizado tornam-se elos seriais de terceiros. O que ocorre então, é a intensificação do inorgânico dentro do grupo como luta contra o próprio inorgânico, contra a dissolução, a dispersão e a morte. "Neste nível se define a instituição, onde certas práticas necessárias para a organização recebem um estatuto ontológico novo institucionalizando-se". (1, p. 268 Vol. II ). Esse "estatuto ontológico" não significa que o grupo chegou a atingir o objetivo que persegue (adquirir a unidade de um organismo), mas que seu modo de ser foi radicalmente modificado pela passagem dialética de organização à instituição.

A instituição não pode ser produzida como livre determinação da prática por si mesma. Mas se a prática volta a tomar a cargo a instituição como defesa contra o terror, o faz na medida em que esta petrificação de si mesma é uma metamorfose induzida, cuja origem está em outro lugar: sua origem é, precisamente, o renascimento da serialidade. Nesse sentido, "a instituição possui características distintas de ser uma práxis e uma coisa". (1, p. 269 - Vol. II ).

A instituição, como ressurgimento da serialidade e da impotência, necessita consagrar o poder para garantir sua permanência pela lei. Impotência porque a instituição, como algo fundamentalmente imutável, torna minha práxis no grupo institucionalizado como incapaz de modificá-lo. Isso porque esta prática se isola, enquanto se produz no meio comum e é definida por novas relações humanas. Relações estas baseadas na impotência serial. Assim essa impotência fundamenta a existência do soberano, pois a autoridade repousa na inércia e na serialidade.

A prática torna-se instituição quando o grupo, como unidade abalada pela alteridade, não consegue mudá-la sem transformar-se inteiramente. Exemplos típicos de instituições temos, segundo Sartre, no Exército, na Igreja, no Partido, etc. O grupo institucional surge através de transformações, transformando a função (característica da organização) em obrigação. Exemplo: obrigações militares, religiosas, familiares, etc. Surgem assim as estruturas de comando e obediência, a estrutura do poder com a autoridade do comando. Mas, ao mesmo tempo, o grupo regressa à serialidade original. E com isso as instituições perdem a ação vivificante dos grupos em fusão e instala-se a rigidez das regras. Surge a burocracia, tornando as regras um fim em si, adquirindo um caráter imperativo. As formalidades, procedimentos e obrigações são mais valorizadas que os objetivos. As relações interpessoais empobrecem e cristalizam-se. O grupo institucionalizado volta à inércia e seus componentes sujeitos isolados que se submetem às regras da instituição. O grupo, após tanto lutar para evitar a dispersão da série, é um novo conjunto de indivíduos dispersos que não se comunicam e sem consciência das regras que os regem. Voltam à alienação da série.

V - CONCLUSÃO

É inegável a valiosa contribuição teórica que Sartre oferece para a inteligibilidade das relações humanas e da vida dos grupos. Sua análise joga um facho luminoso sobre o intrigante problema do relacionamento humano e suas diferentes formas de associação.

À luz de sua teoria pode-se observar e constatar a realidade da existência de relações esclerosadas, cristalizadas, que se mantêm apenas pelo que já está ou foi instituído. Relações que são maneiras seriais de ser, de sentir, etc. Pode-se verificar a existência de grupos, casais e organizações regidas por uma rígida burocracia da rotina, do conformismo e alienação. Outrossim, também é possível verificar como essas mesmas relações ou formas grupais de convívio humano, no afã de livrar-se e afastar o risco de dissolução e desagregação possíveis, procuram a garantia da permanência construindo estruturas e mecanismos de relação que tornam inviável o próprio projeto de relação a que se propõem.

Por outro lado, a visão de que o grupo se faz continuamente e que permanentemente tem que se fazer, coloca em questão o mito da eternidade e da maturidade das relações e grupos. O grupo é ação e um permanente fazer e fazer-se. É devir. E esta é uma das grandes contribuições que Sartre oferece aos que trabalham com grupos ao estudar o grupo social dialética e existencialmente. Seu pensamento constitui-se um importante ponto de reflexão para a psicologia dos grupos.

VI - BIBLIOGRAFIA

- SARTRE, J.P. Crítica de la Razon Dialéctica .(1960). 1a. ed. Vol. I e II.Buenos Aires, Editorial Losada, S/A, 1979.

Este artigo foi originalmente publicado na revista Brasileira de Psicodrama Volume 7, número 2, ano 1999.


Psicólogo Carlos Rubini
Psicodramatista Mestre em Psicologia
Editor Responsável do Caderno de Psicodrama do Jornal Existencial On Line


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