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EDIÇÃO ESPECIAL Página atualizada em 07 de outubro de 2000

 

Trabalho do GED de Músicas Existenciais

 

Angústia Diante da Finitude do Ser
 
Psicóloga Lucyenne Rosas
 
Trabalho produzido no Grupo de Estudo Dirigido da SAEP sobre Músicas Existenciais coordenado pelo psicólogo Jadir Lessa


De um modo geral as pessoas tendem a ver a morte como um acontecimento triste, como a finalização de um ciclo. Na perspectiva existencial a morte não representa apenas um fim, ela integra uma parte do existir. Segundo Heidegger, para que o indivíduo se aproprie plenamente de sua existência é preciso que antes ele se aproprie de sua morte, porque a morte é uma possibilidade presente em nossas vidas o tempo todo. Como dizem por aí: "para morrer basta estar vivo".

Assim, a perspectiva existencial nos chama a atenção para o aspecto mortal do ser humano. Quanto mais conscientes desse aspecto estivermos, mais aproveitaremos nossa vida, nosso presente. A vida acontece no aqui e agora, no minuto seguinte tudo pode acontecer, não podemos prever se estaremos vivos. Quanto mais conscientes de nossa mortalidade mais urgência de vida temos e a pergunta que Paulinho Mosca faz em sua música Último dia: "Meu amor, o que você faria se só te restasse um dia?" parece nos acompanhar.

O contato com a morte geralmente nos desperta uma série de sentimentos e pensamentos, ela nunca passa desapercebida. Somos tomados por uma enorme inquietação e também por uma grande incerteza. Quando recebemos a notícia de que algum conhecido morreu por exemplo, perguntamos logo: morreu de que? É preciso estarmos atentos, poderia ter acontecido com qualquer um de nós. Ufa! Dessa vez escapamos. Ele morreu, eu estou vivo e preciso aproveitar, ainda tem muita coisa que quero fazer antes de morrer. Esses sentimentos nos angustia e nos faz refletir o quanto estamos nos responsabilizando pela construção de nossas existências, por nossas escolhas e por nossas conquistas.

A morte não diz respeito apenas ao aspecto físico, a morte do corpo. Refere-se também aos nossos projetos, as possibilidades que visualizamos e escolhemos no presente. Quando escolhemos uma coisa deixamos outras de lado, assim podemos dizer que vivenciamos a perda (a morte) daquilo que deixamos de escolher. Quando um projeto que nos dedicamos não dá certo, nos provoca um sentimento de perda ou ainda quando um relacionamento chega ao fim, isso então parece a morte. Mas há uma morte muito pior. Uma morte que não nos tira a existência, que pelo contrário nos condena a uma existência ausente, frustrante, inautêntica. Essa morte é decretada por nós mesmos quando não nos escolhemos, quando não nos tornamos livres, quando não buscamos a autenticidade e vivemos à sombra do outro.

Embora a morte seja um tema que muitos não gostam de falar, pude encontrar algumas músicas que se referem direta ou indiretamente a ela. Assim, escolhi seis de diferentes autores para ilustrar as diversas possibilidades de morte.

A primeira música escolhida, Metade de Adriana Calcanhoto, retrata um pouco o que chamei de a pior morte, porque a música fala de alguém que se foi e levou consigo uma parte do outro, deixando cacos, deixando a metade, significando que esse outro não era um ser inteiro, um ser autônomo e que vivia a sua sombra. A segunda música, Bilhete de Ivan Lins, retrata a morte de um relacionamento amoroso, com a extinção total de todos os vestígios da existência do outro e da relação. Perfeição de Renato Russo, retrata a morte de nossos valores sociais e de nossa ética quando nos chama para celebrar todo o tipo de falta de amor, agressão, violência e injustiça. Giz de Renato Russo, retrata a partida de alguém que diferente da música da Adriana Calcanhoto, lamenta a partida e como diz em seu refrão: "Mas tudo bem, tudo bem, tudo bem". Love In The Afternoon também de Renato Russo, retrata a morte de alguém e a continuidade da vida apesar da grande perda. A última música Boas Novas de Cazuza, retrata o cara a cara com a morte física, com o não ser.

Abaixo veja as letras das músicas destacadas acima:

Metade (A. Calcanhoto)

Eu perco o chão
Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste
Eu ando pela sala
Eu perco a hora
Eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não mora mais em mim

Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será que você está
Agora?

Bilhete (Ivan Lins - Vitor Martins)

Quebrei o teu prato
Tranquei o meu quarto
Bebi teu licor
Arrumei a sala
Já fiz sua mala
Pus no corredor
Eu limpei minha vida
Te tirei do meu corpo
Te tirei das entranhas
Fiz um tipo de aborto
E por fim nosso caso acabou
Esta morto
Joga a cópia da chave
Por debaixo da porta
Que é pra não ter motivo
De pensar numa volta
Fique junto dos teus
Boa sorte, adeus.


Perfeição (Dado Villa-Lobos - Renato Russo - Marcelo Bonfá)

1.
Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado, que não é nação
Celebrar a juventude sem escolas
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade

2.
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda afetação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã

3.
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
(a lágrima é verdadeira)
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão

4.
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso com festa velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção

5.
Venha, meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça:
Venha, que o que vem é perfeição.


Giz (Dado Villa-Lobos - Renato Russo - Marcelo Bonfá)

E mesmo sem te ver
Acho até que estou indo bem
Só apareço, por assim dizer
Quando convém aparecer
Ou quando quero
Desenho toda calçada
Acaba o giz, tem tijolo de construção
Eu rabisco o sol que a chuva apagou
Quero que saibas que me lembro
Queria até que pudesses me ver
És parte ainda do que me faz forte
E, p'ra ser honesto só um pouquinho infeliz
Mas tudo bem
Tudo bem
Tudo bem
Lá vem lá vem lá vem
De novo:
Acho que gostando de alguém
E é de ti que não me esquecerei.

Love In The Afternoon (Dado Villa-Lobos - Renato Russo - Marcelo Bonfá)

É tão estranho
Os bons morrem jovens
Assim parece ser
Quando me lembro de você
Que acabou indo embora
Cedo demais
Quando eu lhe dizia
Me apaixono todo dia
É sempre a pessoa errada
Você sorriu e disse:
Eu gosto de você também
Só que você foi embora
Cedo demais
Eu continuo aqui
Com meu trabalho e meus amigos
E me lembro de você
Dias assim
Dia de chuva, dia de sol
O que sinto não sei dizer
Vai com os anjos, vai em paz
Era assim todo dia de tarde
A descoberta da amizade
Até a próxima vez

É tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você
E de tanta gente que se foi
Cedo demais
E cedo demais
Eu aprendi a ter tudo que sempre quis
Só não aprendi a perder
E eu que tive um começo feliz
Do resto não sei dizer

Lembro das tardes que passamos juntos
Não é sempre mas eu sei
Que você está bem agora
Só que este ano o verão acabou
Cedo demais.


Boas Novas (Cazuza)

Poetas e loucos aos poucos
Cantores do confins
E mágicos das frases
Endiabradas sem mel
Trago boas novas
Bobagens num papel
Balões incendiados
Coisas que caem do céu
Sem mais nem por que
Queria um dia no mundo
Poder te mostrar o meu
Talento pra loucura
Procurar dores no peito
Eu sei que sou perfeito
Pra fazer discursos longos
Fazer discursos longos
Sobre o que não fazer
Que é que eu vou fazer?
Senhoras e senhores
Trago boas novas
Eu vi a cara da morte
E ela estava viva
Eu vi a cara da morte
E ela estava viva

Criei milhares de metáforas
E nada lhe falei
Das tripas coração
Do medo
Minha oração
Agarrei com Deus a cada hora da partida
Na hora da partida
Tiros de vamos pra vida
Então vamos pra vida
Senhoras e senhores
Trago boas novas
Eu vi a cara da morte
E ela estava viva
Eu vi a cara da morte
E ela estava viva

Psicóloga Lucyenne Rosas
Aluna da 10ª turma do Curso de Formação de
Psicoterapeutas Existenciais da SAEP.


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