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Na maioria das vezes, psicoterapia está associada com
atendimento para adultos, que pode acontecer por uma
demanda específica ou para o processo de auto
conhecimento. Quando o cliente chega com uma queixa
específica, o tratamento psicológico, torna-se indicado
em qualquer faixa etária, legitimado por um motivo
especial.
A criança, assim como o adulto, é um ser complexo, que
sente, sofre, age, reage, e ao mesmo tempo possui suas
particularidades, pois está no mundo em pleno processo
de desenvolvimento biopsicossocial, de forma muito mais
acelerada do que o adulto. A criança está em meio a uma
rede de relações que desempenham importante papel na
construção do seu crescimento como pessoa.
Assim, quando algo não vai bem em alguns desses laços a
criança facilmente sente-se afetada, principalmente
porque essa rede ainda se constitui muito frágil para
ela. Seja na relação com os pais, com outros
familiares, com a escola, com amigos diversos e até com
ela mesma, as diversas mudanças que vão ocorrendo em
sua vida são suficientes para que ela se desestabilize,
o que é esperado de qualquer ser humano em formação.
Nem sempre a criança consegue estar no mundo, em meio
às mudanças, sejam elas esperadas ou não, podendo
lidar bem, reagindo de forma livre, atuante, ou seja,
aprendendo com isso, a lidar melhor com situações mais
complexas em sua vida.
A criança se isola, se fecha, agride ou adoece, de
alguma forma reage a tal situação, sofre, e não
consegue entender o que está acontecendo com ela.
As queixas mais comuns são aquelas que advém de
comportamentos que não são socialmente aceitáveis,
como por exemplo a criança dita agressiva, que bate em
seu colega com ou sem razão. Geralmente a escola é o
primeiro segmento a tentar lidar com essa situação, mas
as questões que envolvem esse tipo de comportamento
transcendem às questões puramente educacionais. Os mais
diversos motivos estão presentes para a criança estar
no mundo reagindo dessa forma: pode ser a separação dos
pais, um irmãozinho novo que vai nascer, algum segredo
de família que lhe diz respeito, como por exemplo, ser
adotado, dentre outros. A criança que agride está
expressando ao mundo sua indignação sobre algo que,
muitas vezes, apenas sente sem saber clarificar o que a
faz sofrer. Esse foi o modo que ela encontrou para
externar e devolver ao mundo seu sofrimento.
Também pode ocorrer dos pais procurarem auxílio quando
seu filho adoece muito, principalmente sem razão
aparente. Primeiramente os pais levam a criança ao
pediatra para tratar da possível doença, mas o
profissional percebe que essa criança adoece em
determinadas circunstâncias e que, o desencadeamento do
processo de adoecer não possui um agente tão expressivo
quanto a própria estória que aquele paciente sugere.
Nesse caso, são comuns as doenças respiratórias,
vômitos e dores de cabeça sem uma enfermidade orgânica
que justifique tais sintomas. Por isso o médico que
acompanha o desenvolvimento dessa criança indica um
psicoterapeuta. Como na situação anterior, a criança
está expressando algo, se colocando da maneira que pode
frente a fonte de estresse, mas neste caso, o espaço
utilizado é o próprio corpo, dirige o sofrimento para
dentro de si.
Já as crianças que reagem se isolando, estas demoram a
chegar no consultório porque se passam por crianças
muito educadas, quietas e tranquilas. A comunicação que
fornecem ao mundo é: Não me revelo, não me coloco.
Elas são as mais difíceis para o psicoterapeuta lidar,
geralmente o processo psicoterápico leva mais tempo,
pois há pouca troca, pouca expressão por parte da
criança. A psicoterapia ocorre em um ritmo mais lento. O
psicoterapeuta terá que ter mais paciência, para
aproveitar ao máximo tudo o que essa criança conseguir
revelar, trabalhando sempre no sentido de ampliar sua
expressividade o melhor possível.
Ao contrário do que o senso comum pensa, a criança dita
agressiva é mais acessível para o psicoterapeuta tendo
uma resposta mais rápida, pois se expressa, se coloca e
se relaciona com o mundo de um modo mais aberto.
Nas situações descritas acima a criança chega ao
consultório por uma demanda específica, algo que salta
aos olhos dos familiares. E os motiva a buscar o
psicoterapeuta para cuidar da situação já instalada,
sob o cunho da ação curativa, isto é, sanar algo que
não está indo bem.
Por outro lado, a criança é um ser que está se
desenvolvendo, se abrindo a um mundo de possibilidades,
descobrindo e construindo o seu jeitinho de ser e o seu
papel no mundo. A sua responsabilidade cresce a cada dia
bem como o ganho da autonomia, na mesma proporção em
que já não precisa mais de tantos cuidados como antes.
Com tudo isso acontecendo é bastante salutar e porque
não dizer, preventivo, a ação psicoterapêutica nesse
momento tão importante da formação do indivíduo.
Seja com um adulto ou com uma criança, a psicoterapia
trabalhará visando como este ser se coloca no mundo,
para que ele possa se perceber como indivíduo que se
afeta e afeta o outro e, a partir daí, possa construir
um sentido mais apropriado para si, com mais auto
respeito e criatividade. A psicoterapia existencial leva
em conta esta forma de ver o ser humano e também está
sempre atenta a singularidade do ser. Propõe um trabalho
em que esteja presente a responsabilidade como fator
fundamental no processo de conscientização do
indivíduo sobre si mesmo, para então tornar-se agente
do seu processo psicoterápico interagindo com o seu
psicoterapeuta e futuramente agente de sua vida.
O que há de mais particular nesta abordagem é que ela
se utiliza do método fenomenológico de Husserl. O
psicoterapeuta trabalha com o fenômeno que se apresenta
sem julgá-lo ou interpretá-lo, partindo sempre do geral
para o particular. Ou seja, a criança chega ao
consultório com sua história de vida, apresentando
muito mais do que um sintoma, apresenta a si da única
forma possível para ela estar no mundo no momento. O
psicoterapeuta presentifica esse estado para ela e busca
a particularização do fenômeno colocado. Desse modo,
não se trabalha relações de causa/efeito com a
criança. Pois essas não modificam o que se sente, muito
menos apontam para soluções. Portanto, a psicoterapia
existencial não trabalha com sistemas classificatórios,
com enquadres que sugiram qualquer tipo de rotulação ou
julgamento.
A ludoterapia (psicoterapia para crianças) na abordagem
existencial, trabalha com a criança levando em conta
como ela está se revelando para si e para o mundo. O tal
problema específico, é uma dentre as várias formas
dessa criança estar existindo. Ao abranger toda a
estória desta criança, seus sentimentos, conceitos,
forma de agir, enfim, tudo o que lhe diz respeito e não
somente um sintoma expresso, torna-se possível uma
ação mais integrada, afetando a criança como um todo.
É claro que o alcance de autonomia da criança é bem
diferente do adulto, pois ela ainda precisa muito de sua
família tanto como provedora das necessidades básicas
como para seu desenvolvimento emocional. Mas isso não
impede que ela cresça com mais iniciativa e
independência naquilo que lhe compete, conforme sua
idade.
A resolução de um tal problema específico se torna
secundária e muitas vezes ocorre como se sumisse
naturalmente. Na verdade, ao trabalhar os diversos
aspectos da criança, quando ela começa a tomar
conhecimento de si e de como se relaciona com o mundo, e
aprende a distinguir seus sentimentos e expressá-los
melhor, torna-se mais livre, mais responsável, considera
um leque maior de possibilidades para existir nos
diversos espaços do mundo. Então aquilo que a estava
afligindo pode ser visto de uma nova forma,
resignificado, mais flexível, menos cristalizado, ou
seja, com sua criatividade fluindo e colaborando com ela.
A ludoterapia é um processo que exige um grande trabalho
de ambos. Psicoterapeuta e criança trilham um caminho
cheio de encontros, desencontros, brincadeiras,
escorregadas em alçapões, confrontos com bicho-papões,
medo do escuro, viagem gostosa por uma grande floresta de
surpresas, passagem por portas de emoções que levam
para infinitos caminhos. Sem dúvida, uma estória
fascinante, com a presença de personagens importantes e
dois roteiristas fundamentais. Constroem nesta aventura
uma relação de respeito mútuo e grande aprendizado
para cada um e desejando sempre um final o mais
surpreendente e feliz possível.
Psicóloga Gabriela Bessa
Psicoterapeuta Existencial,
Professora Assistente e Diretora de
Marketing Institucional da SAEP.
gabriela.bessa@openlink.com.br
http://www.existencialismo.org.br/psicoterapeuta/gabriela.html
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