EDIÇÃO ESPECIAL Caderno do Existencialismo

 

Entrevista do Psicólogo Jadir Lessa para Rose Campos da revista VIVER

 

"Difícil é Ser Autêntico"

Segue a íntegra da entrevista, que foi publicada no dia 02 de abril de 2001.

Como você pode se apropriar da liberdade? Assumindo a responsabilidade por sua própria existência, decidindo fazer as suas próprias escolhas, em vez de perguntar para o outro o que ele quer que você faça." Esta frase é tirada de um dos livros do psicoterapeuta carioca Jadir Machado Lessa, presidente da Sociedade de Análise Existencial Psicomaiêutica, e resume um pouco do pensamento central dessa abordagem. O existencialismo, como fica claro na entrevista abaixo concedida para Viver, parte do pressuposto que só individualmente o homem consegue encontrar sua própria verdade e que só é feliz quando se torna coerente com ela. Parece simples, mas os desvios e repressões culturais principalmente tendem a nos
afastar dessa verdade. E nem sempre estamos tão dispostos assim a reencontrá-la. Jadir Lessa também fala sobre o difícil diálogo entre diferentes teorias e abordagens psicoterapêuticas, os inatingíveis ideais morais e o isolamento realimentado pelas relações virtuais, entre outros assuntos. Confira:

Viver - Qual o principal diferencial entre a análise existencial psicomaiêutica e as outras abordagens terapêuticas da psicologia?

Jadir Lessa - O principal diferencial é que no lugar de o psicoterapeuta interpretar o cliente é ele, cliente, que interpreta a si próprio. O que quer dizer psicomaiêutica? Esta palavra tem como significado obstetrícia. Sócrates, o filósofo grego, tinha como mãe uma parteira. E dizia que sua arte era semelhante à da mãe. Enquanto ela paria corpos, ele paria almas. O sentido de usar essa palavra é o conceito de o indivíduo fazer nascer a si mesmo e desenvolver seu próprio pensamento.

Viver - Esse tipo de pensamento pressupõe que haja um embotamento do pensamento do homem. O que mais contribui para o embotamento das pessoas?

Jadir Lessa - É como se as pessoas estivessem iludidas, porque têm um simulacro de conhecimento. Ele não está sequer inquieto, preocupado em saber, porque acredita que já sabe. Mas alicerça seu pensamento num conjunto de ilusões e de presunções. O indivíduo presume e toma esse pensamento não como hipótese, mas como uma verdade própria. E acaba colocando a pretensão no lugar da verdade e do conhecimento. Um exemplo de como fazemos isso no dia-a-dia ocorre quando, numa conversa alguém começa a contar uma história e o outro, antes de ele terminar, diz "já sei, aconteceu isso". Esse tipo de pressuposto acaba com a curiosidade e com o desejo de compartilhar com o outro. No limite, esse tipo de comportamento acaba causando um esvaziamento nas relações e nas pessoas. E as pessoas completam essas lacunas com seus próprios pensamentos.

Viver - Vivemos um momento em que a presença real do outro é cada vez mais substituída pelas máquinas, como na comunicação via internet e até nos terminais de auto-atendimento bancário. Isso reforça essa tendência?

Jadir Lessa - Sim. Isso confirma o que eu já havia dito. As pessoas não querem, hoje em dia, fazer muito esforço nem para se relacionar. E a internet favorece isso. Porque elimina alguns elementos da comunicação que são, em princípio, incontestáveis, como a presença física. Na comunicação via internet, eu posso dizer que sou alto e ser baixo, que sou gordo e ser magro, que tenho olhos azuis e ter olhos verdes. Eu posso dizer qualquer coisa.

Viver - De que forma essa falta de contato pessoal interfere nas relações?

Jadir Lessa - As pessoas às vezes preferem a ilusão do que a verdade. E não é só nas relações. O indivíduo doente, com suspeita de câncer, por exemplo, muitas vezes não quer ir ao médico. Ele prefere ficar na dúvida. Porque, se for, e a doença for verdade, sente que a vida dele está acabada. Por isso muita gente adia, só vai ao médico quando isso não é possível postergar por mais tempo e aí não há mais o que fazer. "A verdade vos libertará" está escrito na própria Bíblia. Mas são poucos os que têm desejo de buscar a verdade. E podemos dizer que o grande objetivo da psicologia existencial é buscar a verdade de cada um. Por isso não se busca interpretar o indivíduo, mas descrever como ele é. Só o indivíduo livre pode encontrar sua verdade e exercê-la.

Viver - O senhor quer dizer que nós ostentamos pensamentos e sentimentos que não são autênticos?

Jadir Lessa - Nós exercemos diferentes papéis em várias situações, que satisfazem expectativas que não são nossas, mas dos outros. Por exemplo, quando vou a um cemitério, pode ser que esteja indo para o enterro de uma pessoa querida minha ou de algum amigo. E existe uma expectativa de que eu demonstre tristeza. Mas pode ser que eu só tenha ido para dar uma força para um amigo. Então, não me sinto triste pela morte de um desconhecido, embora a tristeza continue sendo o sentimento que as pessoas queiram que eu tenha. Só que, nesse caso, só estou lá representando um papel. Não me custa muito representar esse papel se eu sei que é isso mesmo que estou fazendo. Se eu não me confundir e não me diluir na massa. Quem não tem essa clareza pode ficar realmente triste e se desconectar com sua alegria. Mas, quando se sabe que está representando, não se confunde.

Viver - Quando essa confusão de papéis pode ser prejudicial?

Jadir Lessa - Vou dar outro exemplo: um indivíduo em papel subalterno numa empresa. Se ele entende que não está apenas cumprindo uma função e um papel que naquele momento tem uma conformação subalterna e assume essa posição, ele começa a entender que é inferior, sem perceber o caráter temporário daquilo. Mas, quando o indivíduo sabe que é apenas um papel, ele flui com mais facilidade.

Viver - Imagino que a culpa seja um ingrediente importante nessas confusões.

Jadir Lessa - A culpa é uma grande manipulação. Acontece quando se dá ao outro a propriedade de si mesmo. Cada pessoa é dona de si mesma. Mas nem todas têm essa consciência, e tentam se tornar donas das outras. Aquelas que têm consciência de que são donas de si não permitem que tomem conta dela. Mas aquelas que foram educadas para ser dominadas são tomadas pela culpa. Não existe ser humano completo. Mas acontece de vermos pessoas que parecem completas. O normal diante de pessoas que se vêem assim é achar graça, porque se sabe que essa completude não existe. Só que algumas sentem-se culpadas por serem incompletas. Pensam: "eu tinha de ser igual a esse aí", e entram na ilusão do outro de uma tal maneira que se sentem culpadas. E acabam dando uma autoridade ao outro sobre si mesmas que o outro não tem. Isso acontece muito na moral. Um código moral deve ser como uma reunião de condomínio. Todos decidem juntos as regras. Mas, quando alguém diz que foi Deus que mandou, aquela passa a ser a verdade absoluta. Aí, se subordina de uma tal maneira que quando faz algo diferente dessa regra sente culpa. Como disse Nietzche, não há mérito nenhum no cordeiro por ele ser cordato assim como não há monstruosidade e maldade no lobo por ele ser voraz. Isso é da natureza de um e outro. Mas chamamos o lobo de violento ou de pecador, embora essa não seja uma questão moral, mas biológica.

Viver - Então, qual o papel da moral?

Jadir Lessa - A moral é uma conquista, uma coisa só humana e reflete seu esforço e persistência em domar a natureza. A moral pode escravizar e destruir o homem quando ele insiste em querer ser santo, porque ser santo não é de sua natureza.

Viver - Voltamos à questão do que se é em confronto com o que se deseja ser. A moral humana tende a ser hipócrita?

Jadir Lessa - Cinismo e hipocrisia são resultado da negação da natureza humana. Quando a moral diz para ele que é proibido ser humano, o que sobra é o cinismo e a hipocrisia. Em muitas situações o homem finge que não é humano, enquanto continua sendo, por debaixo dos panos. Uma sociedade que inibe a sexualidade, por exemplo, é hipócrita. É como dizer ao ser humano que ele não pode comer, não pode se alimentar. Se comer, vai para a fogueira. Então ele acaba encontrando um jeito obscuro de satisfazer sua fome. Então estupidez é a regra que foi criada.

Viver - De que outra forma esse tipo de regra e de cinismo está presente na sociedade atual?

Jadir Lessa - Ninguém deixa você ganhar dinheiro, as oportunidades são escassas. Mas dizem para você acumular. Alguém chegou a definir que o status é conseguir comprar o que não se quer, com o dinheiro que não se tem para impressionar as pessoas de quem não se gosta. E isso resume muito as aspirações e imperativos de nossa sociedade.

Viver - Alguns psicólogos e psicanalistas têm apostado no ecletismo teórico no exercício de suas profissões. O senhor aposta nesse ecletismo como uma tendência de futuro? A psicologia existencial dialoga muito com outras abordagens?

Jadir Lessa - O ecletismo de que muitas pessoas falam só é conseguido na superficialidade. Mas falar de mesclar teorias, mesmo que seja o humanismo e o existencialismo, é muito difícil. Sartre disse, em um de seus ensaios, que o existencialismo é um humanismo. Isso é possível se levarmos em conta que as duas correntes colocam o homem no centro da questão. Mas, se partirmos da visão de Roger de que o homem tem uma essência boa e de que este é um ponto central do humanismo norte-americano, não há como igualar esse pensamento ao existencialismo, que preconiza que a existência precede à essência. Pois o existencialista acredita que, se já houvesse uma essência humana anterior à existência, não haveria liberdade. E a visão humanista segue um determinismo que é semelhante ao da psicanálise, que coloca as justificativas de certos comportamentos no inconsciente e no passado, concentrando a estrutura do indivíduo no seu desenvolvimento psíquico e sexual que ocorre até os 8 anos de idade. O existencialismo, ao contrário, pensa num homem determinado pelo futuro, pelo seu desejo do que ainda quer ser. Mas todas as teorias e abordagens têm em comum o objetivo de tratar o homem e proporcionar que ele funcione. Mas uma teoria não é uma verdade. É só uma hipótese na tentativa de explicar o mundo. Mas canhota, inexata. E não deve ser dogmática, senão não seria teoria psicológica, seria uma religião. Acredito mais na idéia da multiespecialidade, na articulação entre as diversas ciências, mas não no ecletismo.

O Psicólogo Jadir Lessa é Psicoterapeuta Existencial e Autor dos livros Solidão e Liberdade e A Construção do Poder Pessoal.

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