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EDIÇÃO ESPECIAL Caderno de Temas Existencias

 

ARTIGO

 

Motivação Humana e as Organizações: Uma Abordagem Fenomenológico-Existencial

Psicóloga Bianca Alves

Resumo

O presente artigo discute o uso das teorias da motivação pelos teóricos da administração e pretende demonstrar que o reducionismo a que estes sujeitam o homem e a motivação tem como base o fundamento epistemológico mesmo da ciência tradicional e a adoção da concepção da natureza humana como sendo socialmente determinada. O artigo está estruturado da seguinte maneira: breve evolução do pensamento ocidental; exposição das condições em que nasceu a Teoria da Administração e como esta tem tratado os aspectos humanos das organizações; revisão das principais teorias da motivação; apresentação da abordagem Fenomenológico-Existencial e suas concepções sobre autenticidade e motivação; e conclusão, onde sistematizamos nossos argumentos de como, ao longo da história da civilização ocidental, o homem tem sido esquecido em favor da ciência, da técnica, da sociedade e das organizações formais.


1. Introdução:


O presente artigo discute o uso das teorias da motivação pelos teóricos da administração e pretende demonstrar que o reducionismo a que estes sujeitam o homem e a motivação humana tem como base o fundamento epistemológico mesmo da ciência tradicional e a adoção da concepção da natureza humana como sendo socialmente determinada. Para tanto no primeiro item é apresentado uma breve evolução do pensamento ocidental; segue-se a exposição das condições em que nasceu a Teoria da Administração e como esta tem tratado os aspectos humanos das organizações; no item 4 são revisadas as teorias da motivação mais comumente utilizadas pelos teóricos da administração.

Como alternativa à epistemologia tradicional ocidental é apresentada no item 5 deste trabalho a abordagem Fenomenológico-Existencial. Contra a concepção determinística da natureza humana, são apresentados no item 6 os argumentos da Fenomenologia Existencial, segundo os quais o homem tem por condição de existência a necessária liberdade de construir a si próprio. Na conclusão sistematizamos nossos argumentos de como, ao longo da história da civilização ocidental, o homem tem sido esquecido em favor da ciência, da técnica, da sociedade e das organizações formais.

2. Evolução do Pensamento Ocidental:

Nos primórdios do pensamento Ocidental, este mundo pensava sob a forma de alegoria, que é a representação de uma idéia por meio de imagens. Nesse sentido a alegoria pode ser considerada um simbolismo concreto, onde seus personagens são percebidos mais como a personificação de uma idéia do que como pessoas. Platão demonstrou-se contrário a este modo de conhecer o mundo, retomando a teoria de seu mestre Sócrates. Esta teoria se baseia na idéia afirmando que ela é mais que o conhecimento verdadeiro, ela é o ser mesmo, a realidade verdadeira, absoluta e eterna, existindo fora e além de nós, cujos objetos visíveis são apenas reflexos. A doutrina central de Platão é a distinção de dois mundos: o mundo visível, sensível, ou mundo dos reflexos, e o mundo invisível, inteligível, ou o mundo das idéias. Toda a sua doutrina pode ser interpretada como uma crítica ao dado sensível, e como uma exortação a transformá-lo, se inspirando nas idéias, cuja ação deve reproduzir, o mais fielmente possível, a ordem perfeita no mundo do futuro.

Discípulo de Platão na Academia, Aristóteles o critica dizendo que a idéia não possui uma existência separada. Só os indivíduos seriam reais, a idéia só existiria nos seres individuais. O primado é o da experiência. Os caminhos do conhecimento são os da vida. Esse pensamento teve grande influência durante um milênio e teve fundamental importância no pensamento de São Tomás de Aquino, que o "cristianiza". Seu papel principal foi o de organizar as verdades da religião e de harmonizá-los com a síntese filosófica de Aristóteles. Ele demonstra que não há nenhum ponto de conflito entre fé e razão. Para ele, o conhecimento é uma "adequação da inteligência com a coisa". Ele também afirmou que a felicidade do homem não se encontra nos bens exteriores, nem nos bens do corpo, nem nos da alma; só se encontra na contemplação da verdade.

Três séculos mais tarde Descartes tenta conciliar a nova ciência com as verdades do cristianismo, e se fundamenta dizendo que toda filosofia é como uma árvore cujas raízes são a metafísica e as ciências os ramos. Argumentando que o bom senso ( razão) é o que existe de mais bem repartido no mundo, pois todos consideram possuir o suficiente, defende que jamais devemos admitir alguma coisa como verdadeira a não ser que a conheçamos evidentemente como tal. Para conhecer faz-se necessário a criação de um método que garanta o conhecimento como verdadeiro, uma vez que nossos sentidos podem mentir para nós. Descartes apresenta a proposição - penso logo existo - como a primeira e mais certa que se apresenta àquele que conduz seus pensamentos com ordem. Na verdade ele fundamenta o que conhecemos hoje como método cartesiano. Este método foi usado pela nascente ciência social, que se fundamenta, inicialmente, pelo positivismo de Augusto Comte. Nesta perspectiva a história teria três estados básicos: o teológico, o metafísico, e o positivo. A característica essencial do estado positivo é ter atingido a ciência, definindo-se pela verificação e a comprovação das leis que se originam na experiência.

No final do século XVIII este processo já estava influenciando e sendo influenciado por todas as áreas do conhecimento, e vários campos da vida do ser humano se tornaram foco de conhecimento. Com todos estes acontecimentos imbricados surgiu uma nova concepção de trabalho, baseado no auxílio da máquina, que veio modificar completamente a estrutura social e comercial da época, provocando profundas e rápidas mudanças de ordem econômica, política e social - a Revolução Industrial. Com a mecanização da indústria e da agricultura, com o desenvolvimento fabril e uma grande aceleração dos transportes e da comunicação, cresce o papel das organizações na sociedade, abrindo a possibilidade de um novo foco de estudo, que são as organizações.

Este novo campo nasce no princípio do século com a proposta de melhorar o processo de trabalho, mantendo a tradição do Ocidente, que se fundamenta no princípio da razão. O estudo da racionalização do trabalho foi acompanhado de uma estruturação geral da empresa e ao tornar possível e coerente sua aplicação, abre-se a possibilidade de um embasamento mínimo para se estruturar um novo modelo que vai ao encontro do pensamento reinante da época, pensamento este que se vê dominado pela idéia de ação, resultado, hierarquia, especialização, divisão do trabalho etc. As deficiências deste modelo fazem com que se proponha um novo foco na teoria das organizações que é o elemento humano, e se torna possível pensar um novo modelo que se utilizou de conceitos transportados de outras ciências como a sociologia, a antropologia e a psicologia. Este modelo se baseia em crenças, valores, satisfação, realização, autodesenvovimento, responsabilidade, comportamento e liderança.

3. A Teoria da Administração e o Homem

A teoria da administração surge, no início do século, como reflexo do crescente papel que as organizações passam a ter na sociedade e na vida dos homens. Vem responder à necessidade de se aprofundar e sistematizar um conhecimento que, aplicado às organizações, garantam sua sobrevivência, as adapte às transformações em seu contexto e as torne mais eficazes. Para isto vai buscar nas outras ciências sociais, como a sociologia, a economia, a antropologia e a psicologia, conhecimentos acumulados acerca da sociedade, das organizações e dos homens, transportando para seu âmbito teorias e conceitos retirados destas ciências.

Nascida sob a égide da ciência e da técnica, a teoria da administração adota seus meios e seus fins. Centrada nos métodos, sua maior preocupação tem sido buscar os meios mais eficientes para se chegar a um determinado fim, não se ocupando do questionamento e da escolha dos fins mesmos.

Guerreiro Ramos (1981) acusa a teoria da administração, e as ciências sociais de que são parte, de, ao não questionarem as práticas e valores vigentes, servirem como um instrumento de legitimação do status quo. E acusa os administradores, ao se ocuparem apenas com o imediatismo dos resultados, de adotarem uma posição ingênua e irrefletida.

A teoria da administração não pode negligenciar, e tem o dever de explicitar, que suas diferentes escolas, prescrições e técnicas, escondem por trás uma determinada concepção da natureza humana e um ideal de sociedade, que pressupõe uma escolha ideológica (Aguiar, 1992). Utilizar irrefletidamente suas técnicas, apenas como meio, é contribuir para a construção de um determinado modelo de sociedade sem o sabê-lo.

Outra crítica de Guerreiro Ramos à teoria administrativa é a apropriação indevida que esta faz de conceitos de outras ciências sociais. Longe das teorias que lhe deram origem esses conceitos têm seu significado alterado, sendo muitas vezes utilizados de forma contrária ao sentido da teoria como um todo.

A fim de legitimar suas práticas, é comum que a administração vá buscar na ciência teorias que as fundamente. Utilizando o poder de verdade atribuído à ciência, naturaliza opções ideológicas e culturais que deixam assim de serem questionadas.

Neste sentido Guerreiro Ramos critica sobretudo a Escola de Relações Humanas que, ao procurar diminuir o conflito entre o homem e a organização, traz em si uma determinada concepção sobre a natureza humana e uma opção por um modelo de sociedade, e utiliza conceitos retirados da psicologia de forma leviana.

A Escola de Relações Humanas foi a primeira escola a se ocupar mais sistematicamente dos aspectos humanos da organização, até então negligenciados. Foi a primeira a dar ênfase à satisfação do empregado, a se ocupar de suas questões afetivas e pessoais, a falar de crescimento pessoal e motivação, abrindo um caminho trilhado até hoje pelas principais escolas que se seguiram. Desde então a teoria da administração e as grandes organizações têm realizado estudos e procurado desenvolver técnicas a fim de fazer com que os interesses pessoais dos homens coincidam, ou sejam compatíveis, com os interesses das organizações.

A idéia básica que norteou a Escola de Relações Humanas, e todas as outras que continuaram o trabalho iniciado por ela, é que se conseguirmos um meio de fazer com que os interesses pessoais dos homens coincidam com os das organizações, ganham todos, homens e organizações. Aqueles, porque alcançarão realização profissional e satisfação pessoal com a ajuda das organizações, estas porque contarão com empregados motivados e engajados defendendo os interesses delas. Mas os interesses pessoais dos envolvidos com uma organização tendem a ser tantos quantos forem os homens e não apenas diversos, como freqüentemente divergentes. Como então atender a interesses tão diversificados e ao mesmo tempo garantir os interesses das organizações? A saída buscada por muitos estudiosos das organizações foi procurar uniformizar os interesses dos homens, em nome da sociedade, das organizações e dos próprios homens.

É preciso aqui explicitar a concepção de natureza humana e o modelo de sociedade que subjaz atrás desta crença. Segundo esta crença, o homem é socialmente determinado, ou seja, suas características pessoais, seus desejos e aspirações dependem sobretudo do meio social. Assim o homem pode ser moldado pela sociedade e, em conseqüência, pelas organizações. Esta concepção da natureza humana aponta para um ideal de sociedade onde os homens, ao invés de se constituírem de uma forma livre e desordenada em que acabarão por ter interesses muitos diversos, terão sua constituição regulada, adquirindo interesses similares e compatíveis, mais fáceis assim de serem satisfeitos. Uma sociedade assim pressupõe que poucos tenham o poder de decisão e regulem a vida dos outros, que passam a ter interesses uniformizados. Estas concepções de natureza humana e sociedade só deixam lugar para um tipo de organização, aquela em que o poder de decisão e reflexão encontra-se concentrado na mão dos dirigentes.

Estas concepções de natureza humana, sociedade e organizações, aliadas ao primado da ciência e da técnica que se atribuem a força de verdade, a tudo pretendendo responder, favorecem o processo de massificação.

A sociedade ocidental contemporânea, que herdou da modernidade a primazia da técnica, tem caminhado para um crescente processo de massificação das sociedades e dos homens. Padrões de comportamento são transmitidos e assimilados através das instituições de ensino, das organizações formais e informações e principalmente da mídia. É o que Guerreiro Ramos denominou de política cognitiva, que "consiste no uso consciente ou inconsciente de uma linguagem distorcida, cuja finalidade é levar as pessoas a interpretarem a realidade em termos adequados aos interesses dos agentes diretos e/ou indiretos de tal distorção" (1981: 87). Assim, as pessoas passam a interpretar a realidade segundo determinados valores, e mesmo a linguagem que desenvolvem favorece uma determinada visão de mundo.

Determinadas ideologias, legitimadas pela ciência centrada no método, são assimiladas pelas pessoas como se naturais fossem. Desta forma a sociedade centrada no mercado difunde os valores do consumo, massificando as pessoas, que bombardeadas diariamente com uma política cognitiva uniformizante desenvolvem linguagens e representações pobres, inadequadas para refletir e comunicar questões profundas do ser humano e da sociedade, mantendo-se na superficialidade.

Também o ambiente de trabalho, e especificamente o modelo burocrático de gestão, baseado na hierarquia, no estabelecimento sistemático de regras, na divisão de tarefas e papéis, favorece a impessoalidade, a uniformização. A sociedade centrada no mercado "não pode funcionar de maneira eficaz a menos que o desempenho do indivíduo, como membro dos ambientes de trabalho, tenha caráter impessoal" (Ramos, 1981: 98).

Tema central para as teorias que focam seu estudo nos aspectos humanos da organização é a questão da motivação. Desde que a Escola de Relações Humanas chamou a atenção para o fato de que empregados desmotivados têm seu rendimento diminuído, um dos principais desafios para os teóricos da administração tem sido o de fazer com que os empregados se sintam motivados com suas tarefas. Para tanto vão buscar nas teorias da motivação da psicologia o conhecimento que necessitam para aplicar às organizações. No próximo item abordaremos as teorias da motivação mais comumente utilizadas pelos teóricos da administração.

4. Revisando as Teorias da Motivação

O estudo da motivação no trabalho é o foco central do nosso debate sobre a motivação humana e as organizações. As teorias da motivação tratam das forças propulsoras do indivíduo para o trabalho e estão normalmente associadas à produtividade e ao desempenho, despertando o interesse de dirigentes.

Desta forma, o crescimento dos estudos da motivação para o trabalho se dá pela possibilidade de atender o sonho dos dirigentes de criar um motor propulsor, um combustível que mantenha o homem trabalhando, conforme as expectativas da organização.

Executivos e chefes gostariam de ver seus funcionários motivados e integrados com os objetivos da empresa de forma a atingir o máximo de produtividade. Ao perder o sentido do trabalho com sua crescente divisão, as teorias motivacionais têm se transformado em sucedâneos na busca da motivação. A busca de teorias perde o foco no homem. Os indivíduos se tornam um meio para a busca dos fins definidos pela organização devido ao uso de padrões organizacionais de motivação. O indivíduo passa a ser instrumentalizado. Para Sievers (1998:22)

"A fragmentação do trabalho nas organizações produtivas e a alienação daí decorrente levou muitas pessoas que trabalham nas organizações contemporâneas a aceitarem como absolutamente normal desempenhar atividades que não fazem o menor sentido. (...)
A motivação do empregado só se tornou uma questão organizacional porque o próprio trabalho, pela excessiva fragmentação, perdeu o sentido. As teorias motivacionais têm procurado oferecer aos gerentes os corantes e aromatizantes artificiais para tornar tolerável uma atividade que já não faz sentido."

Pode-se separar as teorias de motivação em grande correntes, que se diferenciam quanto à visão do que seria a força propulsora para o trabalho. Estas correntes seriam: os etologistas, que sugerem ser a conduta instintiva de cada espécie animal e a busca por adaptação ao meio a maior motivação para a ação, inclusive dos homens; os behavioristas, que acreditam que a força propulsora são os estímulos externos através do processo de aprendizagem; os cognitivistas, que acreditam que a motivação depende da representação que os indivíduos possuem do meio, o que inclui um conjunto complexo de fatores como percepção, pensamento, valores, expectativas e aprendizagem; a psicanálise, que enfatiza as motivações inconscientes derivadas de pulsões biológicas e experiências passadas, principalmente durante a infância; e um grupo de teóricos que procuram compreender o ser humano na sua vivência concreta, evitando assim os reducionismos.

No sentido de melhor compreender a relação existente entre a motivação humana e as organizações abordaremos nesta seção as teorias da motivação mais freqüentemente utilizadas pelos teóricos da administração.

· Os behavioristas e a motivação

Tanto os behavioristas, quanto os cognitivistas, desenvolveram uma teoria na qual a motivação fundamenta-se no princípio do hedonismo, que afirma que os indivíduos buscam o prazer e afastam-se do sofrimento. Acreditam que as pessoas se comportam de forma a maximizar certos tipos de resultados de suas ações, ou seja, dão ênfase à aprendizagem. Sua abordagem é histórica porque o que motiva o comportamento são as conseqüências dos efeitos produzidos pelo comportamento passado dos indivíduos.

O pressuposto fundamental dos behavioristas, que os diferencia dos cognitivistas, é que a força que conduz o comportamento motivado está fora da pessoa, nasce de fatores extrínsecos que são soberanos a sua vontade. Desta forma, para os behavioristas existe uma ligação necessária entre o estímulo externo e a resposta comportamental. Trata-se de uma espécie de acomodação do organismo vivo às modificações operadas no meio ambiente.

Assim, pelo reforço, ou recompensa, a motivação passa a ser vista como um comportamento reativo, que leva ao movimento. Conforme apontado por Bergamini (1990 : 26):
"a motivação passa a ser compreendida como um esquema de ligação Estímulo-Resposta (...) e que o homem pode ser colocado em movimento por meio de uma seqüência de hábitos que são o fruto de um condicionamento imposto pelo poder das forças condicionantes do meio exterior".

A teoria behaviorista pode representar, de certa forma, um perigo ao se chegar indevidamente à percepção de que o homem está verdadeiramente motivado, quando na verdade está apenas alterando seu comportamento, reagindo ao meio exterior e se movimentando. Assim, a crença de que se pode dirigir o comportamento das pessoas a partir de uma programação controlada, independente de suas vontades, ameaça o sentido da identidade pessoal definido e mantido ao longo de toda a vida.

· Os Cognitivistas e a motivação

Os cognitivistas, ao contrário dos behavioristas, acreditam que os indivíduos possuem valores, opiniões e expectativas em relação ao mundo que os rodeia e que assim também são direcionados em seus comportamentos, só que desta vez, baseados nas representações internas. Isto é, os indivíduos possuem representações internalizadas do seu ambiente que envolvem os processos de percepção, pensamento, e aprendizagem. De acordo com estas representações os indivíduos formam objetivos e lutam para atingi-los. Segundo Motta (1986 : 124):

"Os indivíduos possuem objetivos e expectativas que desejam alcançar e agem intencionalmente, de acordo com suas percepções da realidade. (...) As intenções dependem das crenças e atitudes que definem a maneira de um indivíduo ver o mundo, ou seja, suas percepções."

Em oposição aos behavioristas, que acreditavam que é possível e necessário aprender a motivar os outros, os cognitivistas acreditam que ninguém jamais pode motivar quem quer que seja, uma vez que as ações humanas são espontâneas e gratuitas, tendo como origem suas impulsões interiores. Todavia, não podemos esquecer que os indivíduos tendem a buscar o prazer e se afastar do sofrimento, mas desta vez "a escolha feita em determinada situação é ocasionada pelos motivos e cognições próprios do momento em que faz a escolha", conforme indica Aguiar (1992 : 256).

· A Psicanálise

A administração busca em Freud contribuições para a teoria das motivações, uma vez que este aborda a motivação de uma forma dinâmica que se baseia em forças internas que direcionam o comportamento. Estas forças internas seriam os instintos (libido) que fornecem uma fonte fixa e contínua de estímulo, sendo algumas vezes conscientes e outras inconscientes. As pessoas em alguns momentos estão conscientes das motivações de suas ações, só que muitas vezes são comandadas pela necessidade de liberação e satisfação dos instintos.

Segundo Aguiar (1992 : 257) a principal contribuição da teoria psicanalítica está na ênfase que Freud dá à dependência que o comportamento adulto mantém em relação às experiências da infância.

"A ênfase no passado do indivíduo e nos instintos como forças motivadoras realmente caracteriza a abordagem histórica e o determinismo biológico da teoria psicanalítica.(...) O determinismo biológico deve-se ao fato de que os instintos são herdados e determinam o comportamento humano."

Assim, a principal contribuição de Freud encontra-se no fato de considerar o homem prisioneiro de sua hereditariedade, de seu passado e de seu meio.

· Fatores Higiênicos

Herzberg divide as necessidades como sendo de satisfação no trabalho e de motivação. A satisfação no trabalho está relacionada com as condições em que o trabalho é realizado - supervisão, relações interpessoais, condições físicas, salários, benefícios etc. Estas condições podem ser chamadas de fatores higiênicos, pois estão relacionados com a necessidade de se afastarem de condições desagradáveis.

Já as necessidades de motivação no trabalho estão diretamente relacionadas com a tarefa ou o trabalho, e tratam das necessidades de desenvolvimento do potencial humano e da realização de aspirações individuais- liberdade, criatividade e inovação. Aguiar (1992 : 269) chega a conclusão que Herzberg transforma o indivíduo num meio para se atingir os fins da organização.

"Herzberg toma o meio social, a organização, como a fonte motivadora do indivíduo. Toma o indivíduo como meio e transforma os seus desejos na necessidade da organização. A organização através dos fatores motivacionais manipula o indivíduo, motiva-o. Reduz a auto-realização à realização da tarefa. O indivíduo se motiva no trabalho pelos fatores que se relacionam diretamente com o trabalho."

· A teoria das necessidades de Maslow

A teoria da motivação humana de Maslow é a essência de uma hierarquia das necessidade humanas, constituída pelas necessidades biológicas, psicológicas e sociais. Para desenvolver esta teoria Maslow se baseou em experiências clínicas e nos fundamentos teóricos de James e Deway, no holismo da psicologia gestáltica e no dinamismo de Freud, Reich, Jung e Adler (Aguiar, 1992).

Assim, pode-se dizer que sua teoria considera o ser humano na sua totalidade, ao contrário das abordagens apresentadas anteriormente, já que inova ao mesclar diferentes fundamentos, dando ênfase à integração dinâmica dos aspectos biológicos, psicológicos e sociais.

Maslow vê o ser humano como eternamente insatisfeito e possuidor de uma série de necessidades, que se relacionam entre si por uma escala hierárquica na qual uma necessidade deve estar razoavelmente satisfeita, antes que outra se manifeste como prioritária. Nesta hierarquia, o indivíduo procura satisfazer suas necessidades fisiológicas, fundamentais à existência, e necessidades de segurança, antes de procurar satisfazer as necessidades sociais, as necessidades de estima e auto-realização.

O conceito de auto-atualização tem relevante papel na teoria de Maslow que o definiu como o uso e a exploração plenos de talentos, capacidades, potencialidades etc (Fadiman, 1979). Para Maslow, auto-atualizar significa fazer de cada escolha uma opção pelo crescimento, escolha esta que depende de o indivíduo estar sintonizado com sua própria natureza íntima, responsabilizando-se por seus atos, independentemente da opinião dos outros.

Seguindo a tradição do conhecimento ocidental, as teorias da motivação tem realizado grandes reducionismos ao tentar explicar a motivação humana. Mesmo aquelas teorias que procuram compreender o homem de uma forma mais integrada, considerando-o em sua totalidade, quando transportadas para o campo da administração, têm o significado de seus conceitos alterados. São utilizadas para legitimar práticas que visam a resultados imediatos para as organizações muitas vezes em detrimento dos interesses dos indivíduos que parecem defender. Como alternativa à tradição ocidental do conhecimento e as teorias científicas da motivação, apresentaremos a seguir as concepções de conhecimento, autenticidade e motivação segundo a Fenomenologia Existencial.

5. A Fenomenologia Existencial e a Questão do Conhecimento

Segundo a Fenomenologia Existencial, é próprio do modo do homem ser no mundo não pertencer, isto é, não encontrar no mundo lugar, pessoa ou situação que o acolha por completo. O mundo é para o homem inóspito. A total integração não é possível. A vida humana está sempre em constante deslocamento (Critelli, 1996). É por natureza fluida, inconstante, indeterminada. O homem jamais poderá atingir assim a estabilidade e a segurança que tal estabilidade poderia proporcionar-lhe.

Freqüentemente, esta incompletude e a inospitalidade do mundo são compreendidos pelo homem como abandono. Sente-se abandonado por ver-se lançado no mundo, em determinadas condições históricas, sociais e familiares, sem ter escolhido por isto. Vê-se entregue a própria sorte, tendo que conviver sempre com o desconhecido, o mutável, a imprevisão e a ausência de respostas, o que lhe pode causar intensa angústia.

A tradição de conhecimento do ocidente, na tentativa de por fim a esta eterna busca e fornecer ao homem respostas que o tranqüilizem, inaugura um novo modo de investigar e conhecer o mundo. Procura encontrar um ponto de apoio seguro em que possa basear todo o conhecimento e dar-lhe estabilidade, pensa encontrá-lo na razão lógico-matemática. Apoiando o conhecimento na razão, a tradição ocidental acredita poder torná-lo preciso, claro, estável. Sendo então capaz de fornecer ao homem respostas definitivas, e findar com sua angústia.

A estratégia utilizada pela tradição ocidental para conhecer o mundo foi representá-lo, transferi-lo para o pensamento, para as representações mentais, que obedecem às leis constantes da lógica. Assim, através da representação, do conceito, o mundo ganha estabilidade. Consolidando ao longo de sua história, a crença de que somente o conhecimento científico e a razão podem fornecer as verdades e respostas de que o homem precisa, e de que estas respostas são únicas e encontram-se fora do homem. O conhecimento ocidental funda não só um novo método de conhecimento, como também um modo novo de o homem habitar o mundo. A partir de então, por meio do conhecimento científico e da técnica o homem procura prever e controlar o mundo, a natureza, os fenômenos sociais, a opinião pública, o comportamento das massas e das pessoas.

Habermas (Siebbeneichler, 1989) aponta como conseqüência que se a sociedade ocidental está desenvolvendo normas técnicas sofisticadas por um lado, por outro, as normas e valores éticos tem se generalizado até a diluição. A institucionalização de normas e valores exercidos de modo tradicional, proporcionando um enxugamento burocrático e administrativo das relações humanas pode representar um grande risco para a nossa sociedade.

Contra o processo de massificação e padronização do homem e a concepção da natureza humana como sendo socialmente determinada, apresentaremos a seguir os argumentos da Fenomenologia Existencial, segundo os quais o homem tem por condição de existência a liberdade de construir-se.

6. A Questão da Autenticidade e da Motivação segundo a Fenomenologia Existencial

Lançado no mundo à própria sorte, o homem se vê sozinho, sem indicações de que caminho seguir, sem livros que o digam o que é certo ou errado, que rumo dar à própria vida. Mais do que isso, sabe que a qualquer momento esta existência, que ele não participou da decisão de iniciar, pode acabar. Diante disso o homem busca incessantemente por um sentido para a sua vida. Mas não o encontra pronto no mundo.

O homem está assim, para a fenomenologia existencial, condenado a ser livre. Por não encontrar no mundo prontas as respostas de que necessita, o homem é obrigado a fazer suas próprias escolhas, construir-se a si próprio e dar um sentido para a sua existência, sem nunca receber garantias e tendo sempre que se responsabilizar pelas suas escolhas.

Além de livre o homem é, para a fenomenologia, também só. Só porque veio para o mundo sozinho, quando morrer, estará sozinho, só, tem que se responsabilizar por suas escolhas, e mais do que isso, só, porque ninguém jamais o compreenderá por completo, em seus pensamentos e emoções estará sempre sozinho.

Diante da angústia, da solidão, da possibilidade sempre presente da morte, e da liberdade, o homem tem dois caminhos: aceitá-los assumindo a responsabilidade por suas escolhas e guiando ele próprio a sua vida, em uma existência autêntica; ou fugindo para o anonimato do ser social, confundindo-se com a massa, buscando fora de si as respostas e a determinação de sua vida, em uma existência inautêntica.

Se a liberdade, o indeterminismo e a responsabilidade por sua própria vida parecem ao homem opressores, ele pode então tentar abrir mão desta liberdade, esperando que os outros façam por ele suas escolhas. O homem passa então a justificar-se através dos determinismos sociais, biológicos, culturais ou religiosos. Perde-se nas preocupações cotidianas, nas pequenas mesquinharias do dia-a-dia. Abre mão de sua individualidade, torna-se inautêntico, "mergulha em uma espécie de anonimato que anula a singularidade de sua existência. Perde-se no meio dos outros Dasein, buscando a justificativa de seus atos num sujeito impessoal, exterior. (....) torna-se massa, alheia-se de si mesmo. Com os sentimentos embotados, incapaz de livrar-se dos hábitos e opiniões que lhe são impostos, sua consciência é atormentada por medos e ansiedades neuróticas. (...) O indivíduo - embora julgue que tudo lhe é acessível - já não consegue discutir nenhum assunto com profundidade, detendo-se na superficialidade das coisas, sem interrogar os fundamentos daquilo que discute, tagarelando sobre banalidades, ...." ( Penha, 1982).

Na tentativa de fugir à solidão, o homem inautêntico dissolve-se nos grupos. Se não pode sozinho se responsabilizar por suas decisões e apoiar-se em si próprio, apóia-se nos grupos. Mas os grupos costumam ser exigentes com seus membros e, em maior ou menor grau, exigem uma certa padronização. Em troca de aceitação o homem quando age inautenticamente abre mão de sua liberdade e autonomia.

"Temporariamente ( a pessoa) esquece a solidão, embora ao preço da renúncia à sua existência como personalidade independente. Perde assim a única coisa que a ajudaria positivamente a vencer a solidão a longo prazo, isto é, o desenvolvimento de seus recursos interiores, da força e do senso de direção, para usá-los como base de um relacionamento significativo com os outros seres humanos. (...), gente vazia não possui a base necessária para aprender a amar" (May, 1971: 29).

Mas perdido na massa, desconhecedor de si próprio, é freqüente que o homem também não se sinta feliz, é tomado por uma grande insatisfação e profundo sentimento de tédio e vazio. É comum que se sinta ansioso ou seja acometido por variadas doenças. E novamente a angústia, não possível de ser eliminada,por não ser doença nem defeito, mas a própria condição do existir humano. Os fenomenologistas acreditam que na verdade é ela o alimento da vida, "é dentre todos os sentimentos e modos de existência humana, aquele que pode reconduzir o homem ao encontro de sua totalidade como ser e juntar os pedaços a que é reduzido pela imersão na monotonia e na indiferenciação da vida cotidiana (...), até o autoconhecimento mais profundo." (Chauí, 1999).

Aceitando a singularidade, o eterno vir a ser, e sua condição de ser finito, o homem se torna livre. A fluidez, a instabilidade, e mesmo a ausência de respostas, deixam de ser opressores para ser agora a abertura para a vida plena. Se o homem não é pronto e determinado, ele pode se determinar. Se a vida parece absurda e sem sentido, ele pode para ela construir um sentido. Se a vida não oferece certezas, oferece infinitas possibilidades de ser. O homem se torna autêntico

"quando escolhe a si mesmo, quando decide encontrar-se e conquistar-se, quando faz suas próprias escolhas, quando corre os seus próprios riscos, quando encontra amparo e segurança em si mesmo, quando procura conhecer-se em profundidade, quando assume total responsabilidade pela própria existência e quando luta pela liberdade, pela autonomia e pela autodeterminação" (Lessa, 1999).

A morte deixa de ser percebida como um implacável fim, fazendo-nos sentir que estamos gastando a vida, a cada ano, cada dia, cada hora, tornando assim a existência angustiante. A morte sai do futuro e vem para o presente. Assim ela não mais nos rouba a vida, mas nos impulsiona para que a tornemos plena. A consciência de que somos finitos, nos faz realizar nossos projetos no presente, evitando a morte em vida, que talvez seja a pior de suas faces.

É importante aqui enfatizar que a solidão existencial nada tem a ver com o isolamento e sim com a singularidade. Uma vez que a pessoa aceite esta condição, se saiba única, respeite suas diferenças, busque conhecer profundamente a si própria, mantendo-se em contato com suas reais necessidades, insatisfações e desejos, ela se torna capaz de realizar trocas mais intensas, sinceras e autênticas. Ao contrário daquele que está sempre rodeado de pessoas, mas distante de si mesmo, e só é capaz de relacionar-se superficialmente.

Entendendo o homem desta maneira, um ser inacabado, capaz de significar o seu próprio ser, os filósofos e psicólogos existencialistas ou por eles influenciados, respeitadas suas diferenças, vêem justamente na ausência de respostas definitivas e de um sentido acabado, a principal motivação humana.

Se o homem não encontra fora de si, no mundo, um sentido pronto para a sua vida ele precisa estar sempre construindo um sentido novo para ela. Segundo Viktor Frankl, psicoterapeuta de influência existencialista, "o esforço para encontrar um sentido para a vida é a força motivacional fundamental no homem" (1962 : 97). (tradução dos autores)

"É importante ressaltar aqui que não se está falando de um único e genérico sentido para a vida de uma pessoa. Pois não há um sentido, há vários deles, que vão se alterando ao longo da vida de uma pessoa, na medida em que ela também muda. "O homem pergunta pelo sentido de ser porque este vai embora. (Critelli, 1996: 21)"

Apresentando a logoterapia, ao mesmo tempo em que critica o modo reducionista da ciência conhecer o homem, objetivando-o, fragmentando-o e transformando-o em coisa entre coisas, Viktor Frankl escreve:

"considera o homem como um ser cuja principal preocupação consiste em preencher um significado e em atualizar potencialidades, mais do que simplesmente em buscar por gratificação e satisfação de necessidades e instintos, ou meramente em reconciliar as conflitantes exigências do id, do ego, e do superego, ou na mera adaptação e ajustamento à sociedade e ao ambiente". (Frankl, 1962: 103) (tradução dos autores)

A corroborar a importância central da busca por um sentido próprio para a vida, a motivar os homens, contamos com a afirmação de Nietzsche, considerado precursor do existencialismo, que diz: "Aquele que tem um porquê viver, pode suportar a quase todos os comos" (Frankl, 1962: 104). (tradução dos autores)

Outro autor existencialista que escreveu sobre motivação foi Medard Boss, psicoterapeuta amigo e seguidor de Heidegger. Boss considera a culpa a principal motivação humana. Culpa em alemão é schuld, que deriva de sculd que significa aquilo que carece e falta, "e realmente algo sempre e perpetuamente falta na vida do ser humano" (Boss, 1977). Por mais que consigamos realizar alguns de nossos sonhos, sempre haverá mais coisas que gostaríamos de fazer, por mais que nos dediquemos àquilo que fazemos, sempre acharemos que poderíamos fazer melhor, por mais que viajemos, sempre haverá lugares que gostaríamos de conhecer, por mais que amemos, sempre poderemos amar mais e mais. E o que diremos daqueles que se fecham diante da vida, se negando a viver plenamente, a realizar seus projetos, a amar e ser amado? A estes certamente a culpa será uma carga e opressão. Mas não àqueles que mesmo sabendo que nunca finalizarão sua busca, encontram satisfação em cada conquista. De qualquer forma a culpa, ou falta, estará lá, impulsionando para que todos vão atrás de seus projetos.

7. Conclusão

A civilização ocidental construiu ao longo de sua história, principalmente na Idade Moderna, um modelo de conhecimento centrado no método, na experimentação e na razão. É o modelo da ciência tradicional que desloca do âmbito da vivência humana a busca por respostas não só sobre questões mais imediatas do cotidiano, como também sobre questões como a ética, os valores culturais, a angústia humana diante do desconhecido e o próprio sentido da vida de cada homem, para o âmbito do conceito, da representação.

Para conhecer, a tradição ocidental do pensamento fragmenta e reduz. O homem deixa com isso sua condição de vir-a-ser e passa a ser objetivizado, isto é, passa a ser tratado como objeto. Não se espera mais compreendê-lo, mas explicá-lo. Transferido para a representação o homem é reduzido a hormônios, instintos animais, aprendizagens sociais, pulsões inconscientes e toda a sorte de determinações biológicas, psicológicas, sociais ou uma soma informe de tudo isso.

Assim, ao longo da história de nossa civilização o homem vem sendo esquecido em favor da ciência, da técnica, dos modelos de sociedade e das grandes organizações. Todavia, buscamos um novo referencial que é a Fenomenologia Existencial onde a condição ontológica da existência humana é a liberdade de construir-se a si próprio, através das escolhas feitas ao longo da vida. Aquilo que o processo de uniformização dos homens faz é uma violência contra eles. Cada indivíduo, para realizar-se plenamente como pessoa, deve procurar conhecer-se profundamente a fim de que possa, conhecendo suas reais necessidades, desejos e insatisfações, construir e reconstruir constantemente um sentido para a vida, assumindo os riscos por suas escolhas. "Na realidade, o desenvolvimento pessoal e a solidão pessoal são inseparáveis" (Guerreiro Ramos, 1981: 112)

Não estamos aqui sugerindo o fim das organizações. Sabemos e defendemos o papel fundamental que elas desempenham na vida dos homens, ajudando-os a alcançarem seus objetivos e a viver em sociedade, principalmente na sociedade ocidental contemporânea que chegou a um nível de complexidade nunca antes alcançado. Não é possível pensar nossa sociedade sem as organizações e todo o bem que elas podem proporcionar aos homens. As organizações são importantes também porque o ser humano é um ser gregário, precisa e deseja viver em grupos, cercado de pessoas. Mas é preciso apontar para a perversa inversão que realizamos ao longo de nossa história: as organizações não existem mais em benefício dos homens, são os homens que agora existem em favor das organizações. O que se propõe aqui tampouco é que se deva romper abruptamente com modelos de sociedade e organizações, porque, mais uma vez insistimos, não é questão de modelos, mas de voltar o foco para o homem. É preciso que a sociedade e as organizações dêem espaço para as diferenças e singularidades.

É preciso aceitar o caráter individual da motivação, e termos a consciência que jamais conseguiremos estarmos completamente satisfeitos, existirá sempre uma necessidade não atendida que dirigirá novas condutas motivacionais. Assim, podemos perceber que o reducionismo a que a Teoria da Administração sujeita o homem e a motivação humana é uma conseqüência do fundamento epistemlógico no qual a civilização ocidental se baseou. Este modelo vem sufocando o que nós acreditamos ser afirmação da vida - a autenticidade - e portanto nos remetemos à reflexão sobre nossas vidas e nossas ações, e nos perguntamos se estamos em harmonia com o impulso original da criação, de onde provém a vida, e com sua complexidade crescente, toma consciência de si mesmo e de seu devir criador. Assim, teremos uma perspectiva digna para este dom tão supremo que é a vida.

8. Bibliografia

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BOSS, Medard. Angústia, culpa e libertação. 2. ed. São Paulo: Duas Cidades, 1977.
CHAUÍ, Marilena de Souza. Prefácio in Os Pensadores: Heidegger. São Paulo: Editora Nova Cultural Ltda, 1999.
CRITELLI, Dulce, Mara. Analítica do sentido: uma apresentação e interpretação do real de orientação fenomenológica. São Paulo: EDUC: Brasiliense, 1996.
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FRANKL, Victor E. Man's search for meaning. New York: Simon and Schuster, 1962.
GUERREIRO RAMOS, Alberto. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 1981.
___________. Modelos de homem e teoria administrativa. Revista Brasileira de Administração Pública. abr./ jun. 1984, 18 (2): 3-12.
JAPIASSU, Hilton, MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. Rio de Janeiro: 1991.
HIRSHBERGER, Johannes. História da Filosofia Moderna. São Paulo: Herder, 1967.
LESSA, Jadir. A construção do poder pessoal. Rio de Janeiro: Editora da SAEP, 1999.
MOTTA, Paulo Roberto. Todo mundo se julga vitorioso, inclusive você: a motivação e o dirigente. Revista de Administração Pública. jan. / mar. 1986, 20 (1): 117 - 29.
PENHA, João da. O que é existencialismo. São Paulo: Brasiliense, 1982.
SCIACCA, Michele Federico. História da Filosofia. São Paulo: Mestre Jon, 1962.
SIEBBENEICHLER, Flávio Beno. Jürgen Habermas: razão comunicativa e emancipação. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989.
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Psicóloga Bianca Alves
Aluna do Curso de Formação de Psicoterapeutas Existenciais da SAEP
Mestranda em Administração Pública na Fundação Getúlio Vargas


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